segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Por que meu corpo te incomoda tanto? Por Mateus Barbassa



Vem chegando o verão... ou melhor, já chegou, né?

E o que mais vejo é gente compartilhando suas 'conquistas'. Resultado de procedimentos estéticos, exercícios, suplementos, batata doce, shakes, pílulas e tudo o mais.

É preciso ter o 'corpo' do verão.

Então, tomem fotos de antes e depois. Me amem! Me desejem! Sou desejável!

Também é a hora que as revistas investem em matérias de superação. 'Fulana' emagrece trocentos quilos depois de ser chamada de 'baleia' pelo ex-namorado, mas agora, após a perda de peso, ela manda beijinho no ombro pra ele.

Qual é mensagem aqui? Que ser gorda(o) é feio. E acima de tudo, que somos escravos dos olhares alheios. Sim. Vivemos numa cultura que regula nossos corpos, dizendo que isso é bonito, isso é feio. Fazendo com que milhares de pessoas vivam infelizes consigo mesmo. 

Só o infeliz consome. E é preciso consumir o tempo todo! 

Então, é preciso alimentar essa infelicidade nas pessoas. A padronização corporal é vivenciada de maneira cruel. Faça um teste. Ligue a televisão. Vá ao cinema. Olhe as revistas na banca. Todas essas mídias vendem um tipo físico absolutamente irreal e que não condiz com a maioria de nossa população. 

E, lógico, que tem uma ou outra gordinha ou gordinho. Mas sempre fazendo graça. Nunca com uma história própria. Sempre renegado ao âmbito do humor, do escárnio. Como se ser gordo fosse além de feio, engraçado. 

Por isso, foi tão importante um episódio da série Louie em que uma personagem denunciava essas questões todas. 

Note que os personagens gordos raramente vivem histórias de amor na dramaturgia contemporânea, e quando isso é mostrado é sempre na base da tiração de sarro, como naquele famigerado papel da Fabiana Karla na infame novela "Amor à Vida". Esse é o tratamento. Essa é a causa do desespero. Essa é a pauta. 

Precisamos aceitar a diversidade. Não só sexual. Mas, também, a diversidade dos corpos. É muito comum ver gays fazendo piadinhas com pessoas gordas. Esse é o resultado de anos e anos de opressão. É como escreveu o Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor."

Por isso, sempre quando uma pessoa vem com aquele papo pra cima de mim: nossa, você tem um rosto tão bonito, porque não emagrece? Tem os olhos tão lindos e blábláblá... Eu já respondo na lata: POR QUE MEU CORPO TE INCOMODA TANTO?

Sim, porque isso é um problema só seu, meu amor!

Mateus Barbassa é ator e diretor de Teatro.



Nenhum comentário:

Postar um comentário