sábado, 28 de fevereiro de 2015

Cuidado, Sakamoto explica no final!




Apoio o fato do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega ter sido hostilizado no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

E daí que ele estava acompanhando a esposa que está doente? Conduziu a economia, tem uma parcela de responsabilidade pela situação de crise em que nos encontramos e, por isso, merece ser agredido em qualquer lugar.

Algumas pessoas dizem que devemos respeitar a privacidade em certos momentos. Discordo. Você não está cansado de ter que medir as palavras diante da sua raiva? E as pessoas respeitam a sua raiva? Por que sua raiva é menos importante que a privacidade delas? Já chega! Basta! Se a Justiça não faz Justiça, faça você mesmo.

Viu o governador ou o prefeito no mesmo dentista que você? Não está cansado de seus impostos irem para a corrupção? Xingue-os. Xingue a mãe deles.

Quem é aquele deputado acha que é para frequentar a mesma igreja que você? Vá até ele e dê um soco no meio da fuça. Depois, quando estiver no chão, pise na sua cabeça. Deus concordará com isso.

Mas por que parar no poder público? Não está deprimido de saber que o dono da empresa na qual trabalha ganha horrores enquanto você recebe um salário de fome? Aproveite o velório do filho dele e leve faixas para o cemitério, dizendo que ele será o próximo.

E porque só poderosos? E aquele vizinho gay? Você nunca o viu beijar a outra bicha que mora com ele, mas você tem certeza que faz isso. E coisa pior. Será que o vagabundo pensa que seus filhos podem, um dia, ver aquela nojeira e, contaminados por essa excrescência, virarem bichas também? Entre na casa dele, depois amarre-os e dê 50 chibatadas preventivas.

Ao inferno com a privacidade! Toda mulher que já defendeu algum dia o direito ao aborto deve ser monitorada por câmeras 24 horas por dia, sete dias por semana. Pois há a chance dela transar e ficar grávida. E, ficando, abortar. A privacidade dela vale menos que o direito do embrião à vida. Se ela não aceitar, que seja presa.

Afinal de contas, o cidadão de bem está cansado de tudo isso que está aí. E chegou a hora da desforra. E se o mano a mano ficar difícil, dá para contratar um pessoal que faz um serviço limpo por um preço ótimo.

Vigiar para ser livre. Ser livre para punir. Punir para fazer Justiça.

E não discorde. Ou está comigo ou está contra mim.

(É ridículo ter que explicar, mas cuidado: texto com alta dose de ironia.)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Reformar a Política, para o Povo!



O tema da reforma política é tratado há mais de uma década no Brasil mas nunca saiu do papel porque a reforma política que realmente interessa à nação e ao povo bate de frente com um sistema viciado e que só privilegia a relação promíscua entre público e privado e que financia as caríssimas campanhas eleitorais que cada vez mais elegem os representantes do capital em detrimento do trabalhador.

Quanto custa hoje uma campanha para deputado federal? Quanto custa uma campanha para eleger um vereador de uma cidade média como Ribeirão Preto? Quem financia tudo isso e com quais interesses?

Vemos hoje na tal operação lava jato, apesar dos vazamentos seletivos anti-petistas cometidos pela aliança dos golpistas do Paraná com a emissora da ditadura, que o envolvimento de empresários com políticos vai muito além da opção ideológica do sujeito. São 5 milhões de reais numa campanha para deputado aqui, 2 milhões para outra acolá, uma propina dada ali e outra acolá. Tudo com o objetivo de fazer o poder público refém de interesses que nada tem em comum com os interesses do povo brasileiro.

Junte-se a tudo isso um país onde impera uma mídia monopolista criada e engordada na ditadura e teremos uma crise de legitimidade, onde o cidadão comum é levado a colocar todo mundo no mesmo saco e a considerar a prática política um lixo. É nesse clima que cresce o golpismo e a democracia se enfraquece, e quem mais perde é sempre o povo e o desenvolvimento autônomo do país, já em risco de perder as conquistas sociais alcançadas nos últimos 12 anos.

Não há como defender uma reforma política que não tenha no seu cerne a proibição de doações de empresas para campanhas políticas! E, vejam, essa proposta é defendida pelos partidos progressistas mas é veementemente combatida pelos partidos conservadores e pela mídia. Percebem? Os golpistas que se colocam como donos da moral, mas que estão envolvidos nos mesmos esquemas aqui, aqui e aqui, são os que se colocam na linha de frente no combate à única proposta salutar de reforma política.

54 milhões de brasileiros votaram nas últimas eleições, embora não totalmente satisfeitos, em uma proposta política que afrontou duramente o discurso dos golpistas da moral falsa. 54 milhões de brasileiros se colocaram em defesa do emprego, da renda e na contramão do discurso neoliberal. 54 milhões de brasileiros estão à espera de uma reforma política que caminhe na direção do povo.

Em um país onde um Ministro do STF obstrui o debate mais importante da reforma política sem justificativa plausível e em clara aliança com setores golpistas, é da ação política do governo que nós, 54 milhões, esperamos e dependemos. É a hora da verdade, chega de mentiras, chega de golpes contra o povo.

Quero viver em um país onde os cargos políticos sejam ocupados com pedros, silvas, gente trabalhadora do povo e não por um janota financiado por empreiteiras e que vive de enganar as pessoas em conluio com um mídia podre!

Plebiscito Já!!!



Ricardo Jimenez


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Reformar a Política: para quem?



A vitória do senhor Eduardo Cunha para presidir a Câmara dos Deputados foi uma vitória da Globo e uma derrota de inúmeros movimentos sociais e do povo brasileiro, principalmente dos 54 milhões que reelegeram Dilma em novembro do ano passado.

Com Eduardo Cunha no comando da Câmara, perdem aqueles que lutam por pautas progressistas, como a discussão sobre a descriminalização do aborto, a união homo-afetiva e a adoção de filhos e, principalmente, perde toda a sociedade por causa da paralisação do debate sobre a regulamentação da mídia e sobre uma reforma política que atenda aos anseios e interesses do Brasil.

Eduardo Cunha é o resultado direto de dois movimentos que se intensificaram nos últimos tempos: a campanha enganosa feita por uma mídia monopolista que busca transformar a prática política em algo asqueroso, mas que protege seus "queridinhos", e o encarecimento cada vez maior das campanhas políticas, o que privilegia a participação de empresas e os conluios dessas com determinados políticos. Isso tudo fez com que o Congresso eleito fosse o mais conservador dos últimos tempos, condição essa que também se reproduz nos parlamentos estaduais e municipais, com cada vez menos representatividade de movimentos populares e cada vez mais peso do agronegócio, do "evangelismo" de business e dos magnatas rentistas.

Em meio à esta crise de representatividade cabe a pergunta: reformar a política para quem?

Uma reforma política saída da agenda comandada por Eduardo Cunha só tende a acentuar o descalabro atual. Vejam o exemplo de Ribeirão Preto. Nos últimos 20 anos quais foram os nossos representantes na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional? Nenhum deles foi eleito sendo representante do movimentos populares, nem Palocci. Todos gastando fortunas e sendo eleitos com votos de outras cidades, onde impera o apadrinhamento: as verbas parlamentares forjam a aliança com o cacique local e esse garante os votinhos que encherão o embornal do candidato. Todos carecem de prestígio e conhecimento dentro de sua própria cidade.

Com a agenda de Eduardo Cunha, que já se iniciou com aberrações como o Dia do orgulho Hétero e a transformação da TV Câmara numa TV gospel, somente os caciques políticos e os ricos empresários e latifundiários terão representação nos parlamentos. O voto fechado em lista partidária é bem isto, entregar para os comandos partidários a escolha das bancadas nos parlamentos. Para essa gente causa arrepios a proibição de doações empresariais em campanhas (eles têm até Ministro do STF que fecha com eles). Todos recebem e muito de todas as empresas com interesses na política, até das tais empreiteiras da tal lava jato, apesar de os vazamentos para a Globo serem seletivos.

Enfim, está longe o dia em que a pauta da reforma política encampe os interesses do Brasil e do povo, com eleições mais limpas, mais baratas, mais democráticas e com um sistema que privilegie a participação popular. Eu sou favorável ao financiamento público de campanhas, ao limite de gastos e a todos os mecanismos que propiciem ao povo, ao trabalhador poder concorrer em pé de igualdade para os cargos políticos e, também, poder ter uma participação direta nas decisões políticas, como o mecanismo do orçamento participativo e dos conselhos populares, que devem inclusive ter participação nas audiências públicas nos parlamentos locais, nos municípios, que é fundamental para a democracia e para o país.

obs) Deixo aqui um vídeo que discute um pouco sobre esse assunto: 



Ricardo Jimenez




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Quanto vale um Vereador?


Hoje (24/02/2015) a Câmara de Vereadores de Ribeirão Preto discute em sessão extraordinária o aumento do subsídio (salário) do Prefeito Municipal. O debate é polêmico e isso se traduz na suspensão do debate na última sessão por falta de quórum. Alguns vereadores que assinaram a pauta no início estão agora indecisos quanto ao assunto por medo da pressão popular.

O debate foi aberto, segundo dizem, porque um conjunto de cerca de 100 servidores de alta especificidade está sem receber reajuste salarial desde 2008, pois seus rendimentos são limitados pelo salário do Prefeito e a atual Prefeita decidiu não elevar seus rendimentos desde o dito ano. Portanto, por pressão desses servidores, a Câmara decidiu abrir o debate sobre o tema e propõe elevar o subsídio da Prefeita, reajustando automaticamente os rendimentos desses servidores e dos secretários.

Fica estranho o poder de barganha desses cerca de 100 servidores e a rapidez com que a Câmara agiu em sua defesa. Acredito que todo o conjunto de servidores da Prefeitura deve estar bastante "contente" com esta celeridade toda, uma vez que suas reivindicações costumam não sensibilizar tanto os vereadores.

Bem, apesar dessa estranheza, acredito que tanto o cargo de Prefeito e de seus secretários, quanto qualquer cargo público que exija especificidade e responsabilidade deva ser plenamente remunerado. Acho que essa realidade, para mim, não é ponto polêmico, mas sim um investimento na qualificação dos servidores e da máquina pública. Todo o conjunto de servidores públicos deve ser bem remunerado e deve ter à sua disposição toda a estrutura possível para realizar bem suas funções.

Outra coisa bem diferente é quando os digníssimos vereadores fazem esse debate por causa de uma ínfima parcela dos servidores e buscam embutir nesse debate a questão do aumento dos próprios salários. O que se busca é, dentro desse debate, alterar o ano em que os vereadores poderão votar o aumento dos próprios salários, tirando essa decisão dos anos ditos "eleitorais". Fica a sensação de que os nossos edis querem diminuir a pressão popular que sofrem nesse período, mesmo sob o argumento de "conformidade com a Constituição".

Eu não sou daqueles que embarcam na cantilena da mídia monopolista, que busca transformar a prática política em algo podre enquanto ela, mídia, pousa de dona da moral. Não. Eu considero a prática política a coisa mais importante na sociedade, e ela será tanto mais limpa quanto maior forem os mecanismos de participação e fiscalização popular. Por isso eu defendo os cargos parlamentares, o financiamento público de campanha, o orçamento participativo e a regulamentação da mídia, dentre outras coisas. O país será bem melhor quanto maior for a participação do povo na política.

Mas não confundo minha defesa da prática política com defesa de costumes pouco valorosos de nossos políticos. Pelo contrário, acho que eles têm muitas mordomias desnecessárias. Uma delas é a estrutura por detrás de um parlamentar, em todas as esferas. Se comparada à estrutura existente em outros países, nossos parlamentares são verdadeiros nababos.

Salário de vereador, em específico, e sua estrutura de gabinete, devia ser decidido em audiência pública com participação intensa da população. Por que um vereador com sua profissão, morando na sua cidade necessita de tanta estrutura? Mas, enfim, esse é um debate que pode ser feito mais para a frente. Agora, querer mexer no ano em que essa prática se dá para aliviar a pressão em ano eleitoral é um absurdo.

Assim não dá.

obs: deixo aqui um artido do DCM sobre a vida dos políticos escandinavos. Leiam e comparem!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Invisível na Multidão





Frequentam os mesmos espaços,
Dividem a informação,
Correm na vida louca
Sem tempo de reflexão.

Sabem que vão morrer,
É o seu destino comum.
Mantendo o seu ritual
Sem contato visual.

Há um homem caído no chão,
Não é algo natural,
Mas todos passam por ele
Na impassividade geral.

Rompi esse transe maluco,
Da minha pressa compungida,
Baixei ao lado do homem
Oferecendo acolhida,
Ouvi de alguém por perto:
“deixe esse homem quieto,
Vá cuidar de sua vida!”

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Veganismo, Ciência e Sociedade.





Outro dia assisti a um vídeo sobre veganismo e isso me fez refletir um pouco sobre esse assunto. Não quero aqui fazer um texto polêmico até porque acho o veganismo uma postura respeitável e moderna, mas, como toda postura humana, tem um viés político que não pode ser desprezado. No fundo, esse texto tem o objetivo de discutir política, dentro da discussão sobre veganismo.

O que eu pude perceber é que existem, grosso modo, três razões básicas para se adquirir uma postura vegana ou de não-violência aos animais em geral: a razão ética (filosofia de vida com base nos direitos dos animais, que prega o fim da exploração animal como um todo e considera os graus de senciência animal, ou seja, a capacidade de antecipar e ter sensações de prazer ou de sofrimento), a razão religiosa (uma postura de não agressão aos seres vivos, geralmente animais, como forma de evolução e harmonia espiritual. Presente em filosofias religiosas de cunho oriental) e a razão ligada à saúde (uma dieta vegetariana seria mais saudável e evitaria algumas doenças degenerativas ligadas ao consumo de carne animal e laticínios). Sobre a razão religiosa eu não vou me pronunciar, porque o debate religioso foge ao objetivo argumentativo desejado para este texto. Porém, certas posturas veganas, que serão debatidas mais à frente, flertam com a religiosidade, e isto não será ignorado. Serão discutidas, enfim, as razões éticas e as razões de saúde, que de alguma forma caminham juntas.

Um vegano é uma pessoa que não consome nenhum produto de origem animal ou que tenha sido produzido usando animais de qualquer forma (tendo por trás a postura ética e de saúde). De modo geral, eu concordo plenamente com o movimento que combate a exploração animal. Aqui, por enquanto, eu vou me afastar um pouco da questão alimentar, que será melhor debatida posteriormente, e vou me concentrar na exploração animal como um todo, priorizando o uso de animais para a diversão humana. Acredito que hoje não haja prática mais deplorável que esta. Uma prática ligada ao consumo de massa e das massas, além de sua alienação. O sistema capitalista nos vende todos os dias a ideia de que o consumo é o caminho da felicidade e que divertir-se é o objetivo da vida. Tudo bem, compre essa filosofia quem quiser, mas usar animais como instrumento de divertimento humano, dentro dessa filosofia, é um absurdo irracionalmente violento e que beira um sadismo semi-consciente. O uso de animais para o divertimento humano (rinhas de galo e de cães, corridas de cavalo e de cães, esportes que usam cavalos, touradas, etc) é milenar e tem raízes nos primórdios da prática agrícola. Mas o ser humano é o único animal que tem a obrigação de usar sua capacidade de consciência reflexiva para evoluir suas próprias práticas, e acho que já passou da hora de se proibir o uso de animais para a diversão humana. A permanência dessa prática é inadmissível.

Mesmo as práticas que se iniciaram como um modo de vida e de produção, como as montarias em cavalo e touro, que nos seus primórdios eram usadas para tornar os animais úteis ao trabalho no campo, hoje servem apenas ao divertimento humano e precisam ser combatidas. Sem radicalismos, há no meio rural ainda a necessidade do uso de animais chamados de “carga”, e isso precisa ser visto sob o ponto de vista da legislação (aqui entra a questão política pela primeira vez). Resolver a questão do uso animal para o trabalho da lavoura passa pelo avanço das condições de vida no meio rural (que são péssimas, além de fonte de clientelismo político retrógrado), e passa pela questão política, inclusive passa também pelo combate ao trabalho escravo no meio rural, ainda existente em muitas partes do mundo. Agora, os rodeios modernos são, na minha opinião, um absurdo. Que as pessoas que gostem de música sertaneja e que gostem de se vestir de cowboy e curtir esse tipo de cultura, ou seja, o ambiente country ( diga-se de passagem, importado dos EUA) tenham todo o direito de se reunirem num evento do tipo, mas o uso do animal dentro de uma arena somente para divertir esses seres humanos é deprimente. Mas, esses eventos modernos que usam animais como diversão são uma fonte inesgotável de dinheiro e atraem milhões de pessoas, e aí a questão política aparece novamente. Sinceramente, não entendo como uma pessoa possa achar legal, agradável, ver bezerros serem laçados pelo pescoço ou touros e cavalos pulando com homens nas suas costas tendo a virilha (ou o saco) amarrada por uma corda sem nenhum outro motivo que não seja o de “divertir” seres humanos. É, no mínimo, algo de profundo mau gosto. Da mesma forma que o uso de animais em circos, algo que beirava o sadismo e felizmente está em extinção, o uso de animais em rodeios precisa ser regulamentado e algumas práticas deveriam ser proibidas.

Felizmente há sinais que o uso de animais para diversão humana, principalmente as práticas mais violentas, estão enfrentando resistência mundo afora.  Isso é uma questão de consciência, de bom senso de quem compra esses eventos e também uma questão política, de disputa pelo Estado Nacional, que no fim das contas é quem legisla sobre os assuntos sociais.

Um outro aspecto que merece uma reflexão é a postura vegana de não adquirir produtos que em sua cadeia produtiva seja utilizada, de alguma forma, a exploração animal. Há um movimento, ainda mais amplo que o veganismo, intitulado de Freeganismo. Os freegans além de não consumirem produtos de origem animal, também rejeitam a atual estrutura social consumista e exploradora. Cito isto porque considero importante que a decisão de não consumir produtos de origem animal venha de uma postura política e ética de contraponto à sociedade do consumo exploradora e destruidora ambiental que temos atualmente, mas sem radicalismo inútil, sem fanatismo que flerta, como já mencionei, com uma religiosidade sobre a qual não quero me aprofundar. Assumir uma postura vegana ou freegan como algo de matiz humano, ético e político é positivo e louvável. Essa postura mais racional é perfeitamente capaz de debater questões como a das vacinas, que são produzidas com o uso de animais. Há veganos que se negam até a usar dessas vacinas. Respeito, em geral, as posições pessoais, mas, sinceramente, se colocar contra a produção de vacinas hoje é uma postura inconsequente e que coloca em risco a vida humana, também um tipo de animal que precisa ser protegido. É um pouco diferente do debate sobre o uso de animais como cobaias de maneira indiscriminada, como ocorre atualmente. Acredito que se possa usar animais em pesquisas, principalmente aquelas que tragam avanço de qualidade de vida para humanos, animais e ambiente, mas isso deve ser feito dentro de um rigoroso código de ética. Porém, ouso escrever que a maior parte das pesquisas que usam animais como cobaias são inúteis, causam dor e sofrimento desnecessários aos animais e poderiam ser realizadas sem o uso dos mesmos. Aí, sim, nesse ponto eu concordo com a causa vegana. Ainda dentro do tema: consumo de produtos que utilizam a exploração do animal humano na sua cadeia produtiva, não há hoje nenhum componente eletrônico usado em automóveis e computadores que não tenha a cruel exploração do trabalho humano na sua cadeia produtiva. Não há um produto agrícola ou de vestuário (algodão, seda, etc) que seja produzido sem a cruel exploração do trabalho humano. Não há um produto feito de metal ou de minérios (joias, brocas, lâminas etc) cuja produção não se utilize da exploração humana. A indústria do açúcar, do álcool e mesmo a indústria do petróleo não são bons exemplos de proteção ao trabalho humano. Enfim, mais uma vez cabe aqui o debate político, de qual sociedade queremos construir e o quanto nós, mesmo sem querer, contribuímos para a permanência e reprodução desse modelo, sendo veganos ou não. A questão é bastante complexa.

Entrando um pouco nas questões de saúde, mas ainda dentro do tema geral, de uso de animais, trago agora alguns argumentos veganos que buscam demonstrar os benefícios da prática.  O primeiro grande argumento é evitar o sofrimento animal, no que estou de pleno acordo. Esse argumento é baseado principalmente nas práticas da pecuária bovina, mas também se estende à produção de frangos, porcos, caprinos etc. É preciso combater duramente a indústria desenfreada da carne (uma prática também importada dos EUA), principalmente a pecuária de confinamento que atende à indústria dos alimentos congelados e gera terrível sofrimento aos animais. Além disso, mais da metade da produção de grãos no mundo é destinada à alimentação de animais confinados, ao invés de ir para a mesa das pessoas por um preço razoável. E a pecuária extensiva é uma das maiores causadoras de desmatamento, principalmente no Brasil. Além dos inúmeros matadouros clandestinos ou que não são fiscalizados (do mesmo modo como o uso de cobaias deve estar sob rígido código de ética, o abate animal destinado a alimentação também deveria estar). Em termos de saúde, há o uso desenfreado de hormônios, além do fato de que uma alimentação rica em carne é fonte de colesterol ruim, causador de doenças isquêmicas como o infarto e o derrame (principais causas de mortes no mundo). Portanto, todo ser humano deveria diminuir o consumo de carne e aumentar o consumo de vegetais, é indiscutivelmente uma atitude saudável. O consenso é que as pessoas deveriam se alimentar melhor e a diminuição do consumo de carne contribui para isso. Se, dentro dessa perspectiva, uma pessoa se tornar vegana, tudo bem, desde que tenha condições de ter acesso aos produtos específicos dessa prática, além dos vegetais de origem “orgânica”, livre de agrotóxicos (lembrando que tudo isso custa bem mais caro). E aqui cabe uma reflexão: os principais produtos que hoje são desenvolvidos para o público vegano (inclusive produtos de soja que imitam a consistência e o sabor da carne) pertencem à multinacionais do setor de alimentos, as mesmas que comandam a indústria da carne, dentro do sistema capitalista, cabendo mais uma vez o debate político sobre o tema. Além disso, os produtos de origem orgânica, mais saudáveis e livres de agrotóxicos não são acessíveis à população atualmente, ficando as pessoas à mercê da agricultura tradicional, ligada ao sistema de consumo. Ou seja, uma pessoa comum que se torne vegana vai contribuir para o movimento de combate a dor animal e diminuir o consumo de carne , mas não estará livre dos agrotóxicos. Cabe mais uma reflexão política aqui? Acredito que sim. Portanto, sou favorável a se combater a indústria da carne e sou contra principalmente à pecuária de confinamento, mas o tema é bastante complexo e passa por um debate político-social.

Por fim, acredito que há graus de senciência entre os seres vivos. Mamíferos de grande porte, como os bois e vacas, são bastante sensíveis ao sofrimento, conseguindo inclusive prever o sofrimento, e o trato com esses animais deveria passar por uma revisão, sim. Mas o consumo de carne de origem piscosa ou de frutos do mar é um caso um tanto diferente. Sei que veganos não consomem nem mesmo esse tipo de alimento, mas acredito que esses animais (peixes, moluscos, crustáceos etc) não têm o grau de senciência de um mamífero de grande porte, além do que o consumo desse tipo de carne é saudável. Mas, assim como os vegetais orgânicos, esses produtos estão fora do alcance monetário da população, ficando essa à mercê mais uma vez da indústria alimentícia da carne de boi. A questão que se impõe é a de que a alimentação também é algo ligado ao sistema de consumo capitalista, sendo muito difícil para o cidadão romper essa barreira. Há uma questão política aí também.

Diferentemente do que pregam alguns veganos, não acho que o ser humano seja um animal herbívoro. Ser herbívoro 100% ou carnívoro 100% é relativamente raro no mundo animal. A maioria dos animais tem um certo grau de onivorismo ( e o ser humano também ). Isso é compreendido evolutivamente pela busca da sobrevivência, ou seja, um bicho vivo ou se adapta ou morre e, assim, come o que aparecer. Animais 100% carnívoros têm dificuldades alimentares, assim como os 100% herbívoros, que necessitam de simbiontes para auxiliar na digestão da celulose. Dessa forma, os animais onívoros são mais adaptáveis. A presença ou ausência de garras e de caninos não são condições de definição de carnivorismo ou de herbivorismo. O gorila tem um canino enorme e é herbívoro ( passa 90% do seu dia comendo, porque tem dificuldade de acesso aos nutrientes do alimento), já o chimpanzé come carne e inclusive caça. Pois bem, o homo sapiens certamente já deve ter praticado por muito tempo o consumo de comida in natura, inclusive carne, mas aprendeu que cozinhando facilitava a absorção dos nutrientes e melhorava o sabor das coisas. Evoluiu, teve maior aporte nutricional e proteico, inclusive comendo carne. Acredito que a discussão mais importante agora não é se o ser humano é herbívoro ou carnívoro (até porque ele é onívoro, com uma pré-disposição maior ao consumo de vegetais, que por isso são mais saudáveis), mas como no atual estágio de desenvolvimento humano vamos poder construir uma sociedade onde se possa não só se alimentar de maneira mais saudável (sendo vegano ou não), mas também onde as decisões sejam mais democráticas, a riqueza seja melhor distribuída, o alimento possa chegar na boca de todos, onde os animais e o meio ambiente sejam preservados e onde o animal homem não explore e mate outros homens e, assim, possamos evoluir novamente? Há uma questão política nisso?

Ricardo Jimenez

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

2 Meses!



Há dois meses iniciamos o blog O Calçadão!
Aos nossos poucos mas valiosos leitores, obrigado.
Aqui nós temos opinião e temos lado!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Onde chegará Francisco?



"Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terras e nenhum trabalhador sem direitos".

Essa frase poderia ter sido pronunciada facilmente pela boca de Gustavo Gutierrez ou de Leonardo Boff, mas foi dita pelo papa Francisco. Essa frase seria inimaginável na boca de João Paulo II ou do ainda vivo Bento XVI, só para citar os dois mais recentes ex-papas.

Dias atrás, dois arcebispos italianos recém nomeados por Francisco disseram que é preciso combater o capitalismo como se combateu o comunismo e que o modelo atual coloca o dinheiro no centro, enquanto que o ser humano perde seu sentido. "É preciso combater o desemprego, a pobreza e eliminar as injustiças", disse também um deles, numa frase facilmente imaginada na boca de João Pedro Stédile, líder do MST e que aparece acima num encontro (antes improvável) com Francisco, mas nunca na boca de um arcebispo católico.

Desde que o mundo deixou a Idade Média e a Igreja passou a perder paulatinamente seu poder, só o que houve foi uma reação de cunho conservador por parte da Santa Sé, seja por conta própria, como contra os protestantes, na afirmação de dogmas marianos contra os "modernismos" e no dogma da infalibilidade papal, seja em aliança com o sistema capitalista, como na afirmação da Doutrina Social da Igreja, no final do século XIX, onde a Igreja reafirma seu conservadorismo (o que é plenamente natural), sem contestar o capitalismo. Foi uma forma de adequação pastoral à sociedade industrial inexoravelmente em crescimento, fruto da inteligência do papa Leão XIII. Uma adequação ao capitalismo e o início do combate ao socialismo/comunismo.

O encontro com Stédile, com Evo Morales, a busca de Francisco em formar uma imagem junto aos mais pobres, aos mais humildes e a adoção de um discurso muito mais à esquerda do que pode suportar um católico conservador, sinaliza uma mudança de rumo muito mais profunda do que supunham os entendidos. Veja que Francisco desapareceu do noticiário da Globo, por exemplo.

Nem mesmo após o Concílio Vaticano II, onde a Igreja buscou se adequar mais uma vez à "modernidade", houve tamanha mudança de discurso e de postura. Ao contrário, João Paulo II, com todo o seu carisma, e o Cardeal Ratzinger, com todo seu poder e influência, operaram o tempo todo em parceria com sistema capitalista no combate ao socialismo. Que o digam os líderes da Teologia da Libertação, como o citado Gutierrez. Tirando as pastorais de base (de influência "libertadora"), todo o sistema de poder da Igreja nos séculos XIX e XX foi colocado a serviço do sistema capitalista.

O que mudou? Onde quer chegar Francisco?

Nunca foi novidade para ninguém que a escolha de Jorge Mário Bergoglio representaria uma mudança. A Igreja não suportaria mais nem os escândalos morais e financeiros e nem o crescente problema do esvaziamento das igrejas. A renúncia inusitada de Ratzinger foi parte dessa mudança. Mas uma mudança tão radical no discurso e na ação é que está surpreendendo a todos.

A saída de Ratzinger representa uma forte ruptura na hierarquia e na ideologia católica, bases de um sistema montado antes mesmo da eleição de João Paulo II e que posicionou a Igreja na luta contra o comunismo, contra o ambientalismo, contra a camisinha, ou seja, na vanguarda não só do conservadorismo moral da atualidade, mas na manutenção e reprodução de um sistema absolutamente excludente.

A direita católica já não suporta mais Francisco, desde os moderados ligados à Ratzinger até os medievalistas da TFP. Já a esquerda sorri de alegria a cada pronunciamento do Pontífice. Até eu, um ateu devoto de São Jorge, sinto-me surpreendido, num otimismo crítico e cético.

Não tenho a resposta para a segunda pergunta feita acima, mas acho bastante promissor que num mundo onde os 1% mais ricos já detém mais dinheiro do que os 99% mais pobres, um papa encampe um discurso mais voltado às causas populares. O mundo está em intensa disputa de poder desde o final do século XIX e, nas últimas décadas, a disputa é entre o neoliberalismo e o nacionalismo. Os rentistas contra os povos trabalhadores. Pela primeira vez os trabalhadores ouvem um papa falar frases que os agradam. Oxalá essa mudança vá bem mais além do que a necessidade de encher novamente as igrejas.

Ricardo Jimenez

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Batalha do Discurso: a mídia e a corrupção




O discurso anti-corrupção é, como quase tudo na vida, uma faca de dois gumes. Ele sempre se presta a um papel, à uma estratégia. Geralmente o grito "corrupção!" sai da boca das pessoas mais reacionárias e propensas a aderirem aos movimentos punitivos coletivos, tipos linchamentos em praça pública. Esse sentimento e esse comportamento real por parte de um grupo de pessoas sempre foi usado ao longo da história por um grupo ou outro e para contê-lo a civilização criou o Estado de Direito, um conjunto de leis que rege a sociedade e trata com o devido processo legal os desvios de conduta. Mas o Estado de Direito nem sempre é levado em conta quando a disputa política é tensa e decisiva para grupos que disputam o poder.

De certo modo, o brasileiro tem o sentimento de que aqueles que alcançam o poder acabam uma hora ou outra cometendo desvios. O sentimento geral é que "política é coisa de corrupto, de malandro". E, convenhamos, para um povo sofrido como o brasileiro, que por séculos aguarda a sua vez de usufruir da qualidade de vida sempre prometida e nunca entregue, esse sentimento geral é justo e não fica longe da verdade. Não que a prática política seja suja e, portanto, desimportante, como apregoam os reacionários. Não, é que o povo poucas vezes teve a oportunidade de se sentir realmente representado no poder e, portanto, a elite acaba governando para si mesma e deixando os anseios do povo de lado, daí a sensação ruim sobre a política em geral.

No Brasil, esse discurso anti-corrupção foi usado de maneira brutal pela mídia em duas oportunidades antes da atual. Em 1954 contra Vargas e em 1964 contra Jango. O governo Vargas, que criava a Petrobrás e avançava com o salário mínimo, era o "mar de lama". Já o governo Jango, que propunha aprofundar os avanços sociais com as reformas de base, era a ameaça comunista e ameaça ao equilíbrio da nação, como mostra a capa do Globo na época.

Como se percebe, em todas as vezes entra a figura da mídia, que aqui no Brasil é representada por apena 6 famílias abastadas (pertencentes ao 1% dos mais ricos). É muito difícil competir com esse sistema de mídia monopolizado. E, pior, uma mídia que foi engordada na ditadura militar. Leia a história da TV Excelsior e entenderá como essa disputa se deu em detrimento do progresso do Brasil.

Nos tempos atuais o discurso anti-corrupção ganhou força após a vitória de Lula em 2003, fortalecido por ser o PT, segundo ele próprio propagandeava, o defensor da ética. Ao entrar no poder e se acomodar nas estruturas já existentes, o PT atraiu contra si os raivosos facilmente levados por uma mídia que, a despeito da corrupção, quer mesmo é derrubar um governo que não é alinhado a ela. E a mídia vence o discurso, coloca a todos contra a parede, até o Judiciário. A mídia mais uma vez está vencendo no discurso.

Não importa se o grupo de policiais federais ligado ao juiz Moro seja pró-oposição, e nem se o próprio juiz tem ligação com a oposição. O que importa é ter vazamentos seletivos que prejudiquem seus inimigos. A mídia "apura", julga e condena, e joga para cima dos adversários a massa "indignada". Qualquer menção à necessidade de que a investigação deva ser transferida para outra Vara por um princípio democrático é logo abatida brutalmente.

Continuamos vivendo o clima de combate que se viveu na campanha recém terminada e os objetivos dos "donos da mídia" e seus aliados não é nem de longe "sanear" o país. O objetivo é tomar o poder de assalto, coisa que não conseguiram nas últimas 3 eleições realizadas sob o tacão da "moralidade".

O objetivo continua sendo interromper qualquer projeto de nacionalismo que se estabeleça no país. E no meio de tudo está novamente a Petrobrás (e os interesses das multinacionais) e a elevação do padrão de vida do trabalhador, realidade inconteste nestes últimos 12 anos e que aflige e muito os representantes do 1%.

A reação a tudo isso só será dada no campo político e social. Não há outra alternativa que não seja a luta em defesa do patrimônio nacional e pela continuidade e aprofundamento das políticas sociais e do emprego. A luta mais imediata é defender o governo Dilma dos abutres e, assim, defender o Brasil.

Ricardo Jimenez

A batalha do discurso: a mídia e o neoliberalismo



Em 1990 um dos "ideólogos" de Ronald Reagan, chamado Francis Fukuyama, pregava o que ele chamava de "fim da história". Com a queda do comunismo na URSS e no leste da Europa entre 1989 e 1992, apenas o capitalismo de mercado sobrevivia e não mais haveria disputa ideológica na história. Era a vitória inconteste do capitalismo, particularmente, de sua vertente neoliberal.

Não foi bem isso que ocorreu de fato a partir de 1990, e o próprio Fukuyama foi obrigado a admitir, mas o neoliberalismo venceu uma batalha fundamental desde que se arrogou em hegemônico: ele venceu e vence até hoje todas as batalhas midiáticas. O neoliberalismo domina o discurso. Mesmo os mais tradicionais partidos de esquerda no mundo e os mais diferenciados intelectuais de esquerda têm dificuldade em se contrapor a esse discurso vencedor.

Nas décadas de 40, 50 e 60, o nacionalismo estava em alta no mundo. Na América do Sul destacavam-se Brasil e Argentina com suas políticas de substituição de importações e implantação de uma indústria local, liderados por Vargas e Perón. A Liga Árabe, e seu pan-arabismo, um nacionalismo árabe, liderado por Nasser no Egito, a esfera de influência da URSS no leste europeu e em Cuba e a construção do Estado de Bem-Estar Social na Escandinávia, e mais alguns países europeus, colocaram pela primeira vez no século a liderança dos EUA em xeque e apontou para um sistema de crescimento autônomo, em benefício das amplas massas trabalhadoras.

O neoliberalismo foi uma reação a tudo isso a partir da crise do petróleo da década de 70 e da derrubada de governos de esquerda na América Latina. O mundo deu uma reviravolta a partir dos anos 70 e acabou caindo no colo dos EUA. A chamada "crise da dívida" varreu os países latino americanos e varreu junto os projetos nacionalistas. No Oriente Médio surgiu o fundamentalismo islâmico sobre os escombros do pan-arabismo e sob financiamento saudita (em aliança com os EUA). Na Europa, a aliança entre Ronald Reagan e Margareth Thatcher iniciou o confronto contra o Estado do Bem Estar Social, o classificando de perdulário e ineficiente. O "Consenso de Washington" sacramentou a tendência: privatizações, desnacionalizações industriais, substituição dos investimentos reais para o investimento financeiro, adoção de "ajustes fiscais" nos países para garantir a "liquidez" do sistema financeiro montado, investida contra os direitos trabalhistas históricos e uma brutal depreciação a qualquer discurso que se opusesse a essa tendência hegemônica de pensamento.

Acontece que o neoliberalismo venceu no discurso mas jamais venceu na prática (não com o sucesso apregoado pelos seus defensores, ao contrário, foi sempre um desastre). Veja os casos de Brasil, Argentina e México. Entre 1990 até hoje, ninguém privatizou mais, abriu mais a economia e até "flexibilizou" direitos trabalhistas do que esse trio, e qual o resultado? Brasil e Argentina ainda tiveram arremedos de uma reação nacionalista com Lula e Kirchner e conseguiram uma relativa recuperação do desenvolvimento, do emprego e da renda do trabalhador, mas o México, que ingressou na aventura do NAFTA, é um país absolutamente destruído, dominado pelo narcotráfico e com um índice de miséria maior que 40%, com seus trabalhdores sofrendo nas mãos das "maquiladoras". A situação no México é tão grave que se espera que em breve ele se torne apenas mais um agregado dos EUA, como é Porto Rico. Mesmo no Chile, onde o neoliberalismo foi implantado na brutal ditadura de Pinochet (através de uma delegação chamada de "Chicago Boys", em referência à Universidade de onde partiram as ideias do "Consenso" e onde se localiza a fonte onde até hoje bebem os próceres econômicos do tucanato) o resultado para o trabalhador foi desastroso, pois com um crescimento de 5% em média do PIB em 10 anos (comemoradíssimo pela Globo) foi capaz de criar a sociedade mais desigual da América do Sul, empatando com o Brasil que lhe é 8 vezes maior (aliás, Globo e Veja já demonstram claramente uma posição anti-Bachelet figadal).

Na Europa esse processo foi lento pois o Estado do Bem Estar Social foi sendo solapado aos poucos na Espanha, em Portugal, na Itália, na Grécia, nos Países Baixos e até na Escandinávia, onde a Suécia perdeu o primeiro lugar no ranking de qualidade de vida justamente quando implementou algumas políticas de "austeridade" pregadas pelo tal de "mercado". Na Inglaterra, o partido Trabalhista foi intelectualmente destruído e criou a vergonha Tony Blair. Por lá, na época da morte da "Dama de Ferro", houve festa por todo o país, pois Thatcher é odiada por suas medidas de "austeridade" que além de cortar o leite da merenda nas escolas, produziu desemprego e empobrecimento da classe trabalhadora. Aliás, desemprego e empobrecimento são as únicas coisas em que o neoliberalismo é muito competente em criar.

No texto Soy Latino Americano discuti o contexto da América Latina após 1998. Mas é na Europa que o debate parece aquecer a ponto de assustar o tal de "mercado", com avanço da esquerda na Grécia, Espanha e até na Alemanha. O Estado do Bem Estar Social ainda não foi destruído, pelo contrário, os países escandinavos, onde ele ainda é bem forte, se destacam no mundo em todos os quesitos de qualidade de vida do povo (veja aqui, aqui e aqui) e isso é muito importante como base para se contrapor ao discurso neoliberal. A situação do trabalhador, das massas populares ainda é gravíssima pois o inimigo é muito poderoso, mas a guerra ainda não terminou.

Outra característica do neoliberalismo é enfraquecer o Estado. É conhecida a expressão "Estado mínimo" defendida por eles. Acontece que nenhum, repito, nenhum país no mundo se desenvolveu a partir de um Estado mínimo. Pelo contrário, sem a atuação do Estado nenhum deles se viabilizaria na história. Pegue os EUA e o New Deal de Roosevelt e Keynes, ou a implantação da ferrovias nos próprios EUA e na Europa. Veja o papel do Estado na proteção da indústria do petróleo nos EUA ou na revolução industrial na Inglaterra e na Alemanha. Enfim, o Estado é uma ferramenta fundamental do desenvolvimento, por isso a sua brutal disputa tanto pelas forças do capital quanto pelas forças populares. Cair no discurso do "Estado mínimo' é a mesma coisa que acreditar nas boas intenções da Globo.

O combate ao neoliberalismo não pode se dar dentro de gabinetes ou através apenas de lideranças carismáticas. O combate ao neoliberalismo tem que ser prático e teórico. Prático na união dos movimentos populares no mundo todo e teórico no combate do discurso. E, para vencer o discurso, é preciso democratizar os instrumentos de mídia no mundo todo. Essa é uma prioridade. As lutas e bandeiras dos movimentos populares devem obrigatoriamente conter a democratização da mídia como premissa. Sem isso a batalha pelo discurso continuará sendo perdida.

Aqui no Brasil tivemos recentemente as visitas de Nouriel Roubini e de Thomas Piketty, e a imprensa local não deu nenhum destaque. Vivemos num mundo onde de 1990 para cá a renda se concentrou de maneira brutal, sendo que na atualidade os 1% mais ricos detém mais dinheiro do que todos os outros 99% somados (aqui). Só isso já seria motivo suficiente para se ter uma porção de teorias e discursos anti-neoliberais espalhados pela mídia, se ela não fosse concentrada nas mãos de grandes capitalistas pertencentes ao 1%.

A luta é árdua e muitas vezes ingrata. Por algumas vezes o Brasil teve a oportunidade de aprofundar um projeto de desenvolvimento autônomo, como em 54, 64 e agora após 2003, mas sempre foi impedido de fazê-lo pelas mesmas forças que agora se movimentam para derrubar Dilma Roussef. Não há outra ferramenta de luta que não a unidade popular! Sem desistência!

obs: deixo aqui algumas coisas sobre o economista Gunnar Myrdal, sueco, Nobel de 1974 e criador do Estado de Bem Estar Social escandinavo. Vale a pena: aqui e aqui.

Ricardo Jimenez

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O Brasil tem Ministro da Justiça?


O juiz paranaense determina a "condução coercitiva" de um cidadão não arrolado como réu, com endereço fixo e com histórico de colaboração com as investigações e um policial federal é filmado escalando o muro da residência do cidadão. O cidadão tem como emprego ser tesoureiro do PT e a câmera que filmou a escalada do policial era da rede Globo de televisão.
Agora, o que uma câmera da Globo estava fazendo ali? Logo depois, na mesma reportagem, é mostrada a filmagem do depoimento de um dos acusados fazendo uma delação ao juiz paranaense. O recorte da filmagem que é levado ao público mostra o exato momento em que o depoente acusa o tesoureiro do PT de receber propina. De novo, porque a rede Globo tem acesso a isso?
Talvez no Brasil de hoje não haja pior emprego do que ser tesoureiro do PT, pois você terá no seu encalço a maior rede de televisão do país e certamente terá como recompensa a prisão após alguns anos de serviço. E, detalhe, sua prisão será feita absolutamente sem provas e num julgamento midiático onde será acusado, julgado e condenado ao vivo no Jornal Nacional.
Todo esse esquema que se monta, toda vez que se quer desgastar e/ou derrubar um governo Trabalhista, conta com o apoio de parte da Polícia Federal e do Ministério Público. Acusações sem provas são feitas contra um partido para ganhar manchetes de jornal e outras absolutamente comprovadas, como a propina que recebeu Robson marinho, do PSDB, no esquema do trem em São Paulo, inclusive pela justiça da Suíça, cai no "esquecimento".
O sistema de delação premiada é canhestramente distorcido em prol dos interesses de quem conduz as investigações e fica por isso mesmo.
Cabe aqui uma pergunta: o Brasil tem Ministro da Justiça?

Ricardo Jimenez

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

3o Turno, não, é golpe! Parte 2

Pois é. Já escrevemos aqui sobre a semelhança entre as crises que se abateram sobre Vargas e Jango e a que se abate agora sobre o governo Trabalhista do PT. É o velho golpismo udenista com roupagem nova. Sem voto, sem amparo no movimento popular, sem uma raiz histórica de atuação pelo desenvolvimento nacional autônomo e alicerçado em uma estrutura de mídia monopolista e tão golpista quanto. Está aqui.
Não sabemos o desfecho da crise atual. Mas em poucos dias a tal operação lava jato nos mostrará claramente seus rumos, mostrará ou não a cara do golpismo. A maior metrópole da América Latina corre um risco real de "morrer seca", levando consigo a economia do país, mas só se fala em Petrobrás, apesar de seus recordes mensais de produtividade.
Um certo juiz federal comanda a investigação feita por policiais federais, que assim como o juiz, têm ligações com o PSDB do Paraná. O mesmo PSDB do Paraná que criou e amamentou o tal doleiro Yussef, aqui e aqui. Isso tudo está há quase um ano sendo transmitido diariamente pela emissora que serve de quartel general digital do golpismo. O governo Dilma sangra. A tentativa clara, apesar de todas as denúncias que envolvem todos os partidos, é colar o "escândalo" na presidente para que a oposição, com o apoio da Globo, encaminhe o impeachment.
Isso não é novidade para quem acompanha os blogs alternativos.
Novidade é a apatia do PT. 
Vejam: acabou de ocorrer uma campanha eleitoral onde tudo isso foi batido à exaustão pelos mesmos mecanismos golpistas a serviço de Aécio Neves e mesmo assim 54 milhões de brasileiros deram a vitória para a senhora Dilma Roussef. Foi antecipado aqui no Brasil um debate que está pegando fogo na Europa, a "austeridade fiscal" versus a geração de emprego e renda. A maioria da população brasileira escolheu o emprego e a renda e deu uma banana ao play boy e à Globo. Lula e Dilma apareciam juntos todos os dias na TV e juntos venceram a eleição.
E aí?
E aí que passados 90 dias da posse, nós, os 54 milhões, estamos confusos. Cadê o nosso discurso? A resposta para nós foi o Joaquim Levy? Ou Joaquim Levy faz parte da concessão dada ao golpismo para tentar apaziguar o golpe? Lula e Dilma estão rompidos? Porque o governo manteve a diretoria da Petrobrás para depois a mesma vir a público dar armas para o golpismo, como na bobagem dos 88 bilhões? Quem tem medo da lava jato? Quem tem medo da Globo?
São muitas perguntas e até agora nenhuma resposta.
Talvez parte delas venha nos próximos dias, quando a tal operação vai revelar os nomes políticos envolvidos no escândalo.
Para nós, os 54 milhões, resta continuar com as convicções que nos trouxeram até aqui. Lutar por um país onde o sistema de mídia seja democratizado, onde as campanhas eleitorais sejam limpas e distantes da relação promíscua com empresários, onde a nossa maior empresa possa ser mesmo brasileira junto com seus 12 bilhões de barris do pré-sal e onde o emprego, a renda, a educação e os sonhos de milhões de brasileiros não fiquem reféns de golpistas, oportunistas e de covardes.

Ricardo Jimenez

A Fiúsa vale mais que a D. Pedro? Quem decide isso?


Estudiosos no assunto afirmam que a segregação sócio-espacial, o fenômeno onde as classes sociais se separam cada vez mais dentro de uma área urbana, é cada vez maior e mais rápida, com todos morando cada vez mais longe do centro: os pobres relegados aos bairros mal servidos de equipamentos públicos e os ricos se fechando em condomínios de "alto padrão".

O conceito de cidade, onde o indivíduo se enxerga residindo em um bairro onde todos percorrem e dividem o mesmo espaço livremente (e onde todos podem se encontrar e conviver, seja em uma conversa no mercadinho, cortando o cabelo na esquina, no ponto de ônibus) e que seja interligado, também livremente, a outros bairros e ao centro da cidade, está acabando ou se tornando, no máximo, uma realidade para uma parcela da população para a qual não há outra alternativa: os mais pobres.

Cada vez mais o conceito de cidade interligada não faz mais parte dos planos de quem tem maior poder aquisitivo.

E a culpa disso é da administração pública, refém do poder econômico e da pressão da especulação imobiliária.

Hoje, Ribeirão Preto é uma cidade altamente excludente e dividida. Há, claramente, duas cidades, dois conceitos de aquisição e utilização do espaço urbano: o dos pobres e o dos ricos.

Como se chegou a isso?

Até o início da década de 1960, Ribeirão Preto era uma cidade que vivia o Centro e mesmo a grande mudança que se operou na cidade nos anos 40 e 50, de migração das pessoas da zona rural para o perímetro urbano, não alterou esse quadro. Tudo era próximo ao centro, sejam os bairros populares tradicionalmente organizados ao longo e em função da via férrea (Vila Tibério, Vila Virgínia, Campos Elíseos e Ipiranga), sejam os bairros em vias de serem pontos comerciais (Jardim Paulista e Campos Elíseos), sejam os locais mais tradicionais da elite (entorno da Avenida Nove de Julho).

Mas a maior ocupação do perímetro urbano fez surgir um novo e poderoso componente: a especulação imobiliária. Os ricos compravam inúmeros imóveis ou cortiços para alugarem ao número cada vez maior de trabalhadores urbanos. Mas isso pouco durou, pois o automóvel fez com que as vias de passagem necessitassem ser alargadas e as avenidas e ruas largas expulsaram os pobres para cada vez mais longe do centro da cidade. Surge, então, a típica estrutura das sociedades industriais: bairros pobres afastados com inúmeras sub-moradias e baixa infra-estrutura urbana, bairros "nobres" com acesso mais facilitado por vias largas e um centro da cidade decadente servindo apenas como local de passagem para o trabalhador que vai e vem do seu trabalho conduzido por um transporte coletivo precário.

Ribeirão Preto já era assim em 1980 quando o "novo" processo de ocupação passa a predominar: os "conjuntos habitacionais", localizados em áreas antes rurais e que agravaram ainda mais o problema.
Os financiamentos públicos, tipo BNH, fazem os recursos dos Estado serem canalizados para as empreiteiras e essas constroem os "conjuntos", com qualidade duvidosa, nenhuma infra-estrutura urbana, transporte coletivo minguado e o longo tempo do financiamento garante o retorno do "investimento" com lucro. Como a esfera pública é pautada por quem tem dinheiro e quem tem dinheiro tem poder, as cidades ficaram (e estão cada vez mais) sendo conduzidas ao sabor dos interesses especulativos do capital.

Geralmente funciona assim: o "conjunto habitacional" é lançado e ocupado sem nenhuma estrutura. Aos poucos as "melhorias" são feitas: um posto de saúde, uma escola, a abertura de comércio, linhas de ônibus e aí começa a "valorizar" o local. Logo essa "valorização" acaba expulsando os mais pobres entre os pobres para sub-moradias ao redor (Ribeirão Preto tem um dos maiores índices de expansão de favelas do Brasil desde 1990). E o processo é contínuo. Essa concentração populacional nesses "bolsões" em áreas determinadas (em Ribeirão Preto, mais de 70% da população mora em "conjuntos" e bairros pobres nas zonas norte, oeste e leste da cidade) geram uma infinidade de problemas, incluindo a violência, que vai fazer efeito na outra ponta da nossa história.

Quem decide a "valorização" imobiliária e a localização das "áreas nobres" é o mercado, o capital, pressionando o poder público. Por exemplo, em 1960 a ligação entre Ribeirão e Bonfim era feita por uma estrada de terra ocupada por chácaras, numa região muito menos valorizada do que a rua Henrique Dumont no Jardim Paulista na época. Vinte cinco anos no tempo e a coisa se inverte. A avenida Presidente Vargas ganha notoriedade, principalmente depois da abertura do primeiro Shopping da cidade e amplia a "área nobre" para além da Nove de Julho. Era o início do "glamour" da zona sul. O poder público, pautado pelo poder da pressão financeira, é o instrumento que vai criar e ampliar a enorme diferenciação estrutural e social entre a áreas "valorizadas" e "desvalorizadas" da cidade.

Nas áreas chamadas "nobres" o que mais pega é a questão da violência, sempre enfrentada na base do "policismo": os ricos exigem a polícia nos seus bairros o tempo todo e cobram ações "duras" do poder público para conter a "bandidagem" nos seus locais de origem. Os mais ricos entre os ricos (agora nem tanto) fogem para os condomínios fechados e há até aqueles que exigem da Prefeitura que torne os seus bairros condomínios fechados, como tentaram recentemente os moradores da City Ribeirão.

Imagina o que seria se a associação de moradores do Simioni solicitasse a mesma coisa da Prefeitura? Seria um escândalo. Mas na zona sul é considerado "normal" um pedido esdrúxulo desse.

Ribeirão Preto é uma das cidades mais excludentes do país. Começa no péssimo transporte coletivo, que já exclui uma massa de pessoas do acesso à sua cidade. Depois há o predomínio do automóvel. E, por fim, a escassez de locais de lazer e cultura, junto a um centro da cidade ainda em franca decadência. O comércio no centro ainda resiste, ao contrário do comércio nos bairros populares, cada vez mais pressionados pela violência e dificuldade de acesso das pessoas. Enquanto o comércio no Boulevart, Presidente Vargas e adjacências ainda consegue crescer frente os Shoppings, o comércio nas avenidas D. Pedro, Pio XII, Luzitana, 13 de maio, Mogiana e nas ruas General Câmara, Javari, Demétrio Chaguri e outras tantas definha ano a ano, na esperança de projetos de melhoria e ampliação que nunca chegam. Como se o comércio e o emprego gerado nesses lugares não fosse importante.

Hoje Ribeirão Preto só cresce para a zona sul, apenas os grandes empreendimentos imobiliários. Os bairros populares estão esquecidos.

Como mudar isso? Será que as cidades estão fadadas a se tornarem cada vez mais excludentes, com uma divisão total entre ricos e pobres, onde morar num bairro "normal" onde as pessoas caminhem livremente será algo estranho e destinado aos "pobres" que não conseguem morar nos "paraísos" dos condomínios fechados?

Bom, a Constituição Federal define no artigo 170 a "função social" da propriedade e o Estatuto das Cidades define os mecanismos que a sociedade tem de planejar melhor a organização e função dos espaços no perímetro urbano. E tudo passa por duas coisas básicas: informação e organização.

A Prefeitura é um órgão administrativo que funciona sob pressão e em favor de interesses. Os mais fortes e organizados sobrevivem. É assim. Seus principais mecanismos de atuação são as leis e a gestão tributária. A organização social e popular deve agir sobre isso. O que deseja a população sobre a ocupação do espaço urbano e o futuro dos seus bairros? Como o movimento organizado atuará nos debates do Plano Diretor que acontece Câmara de Vereadores? O que é o IPTU progressivo e como usá-lo para melhorar as condições dos bairros populares? O que deseja a população sobre a aplicação dos tributos? O orçamento participativo existe e é uma lei esquecida pela administração desde 2004. Como retomá-lo?

Por fim, surgirá uma liderança política em Ribeirão Preto capaz de dialogar com o povo e liderar um projeto de cidade integrada, inclusiva, onde os seus destinos sejam debatidos por todos e onde o gabinete do Prefeito seja um local de acesso fácil para qualquer um e não apenas para o lobby dos poderosos?

Ricardo Jimenez


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

3o turno, não, golpe!

É fácil acessar a informação, basta procurar sobre o ano de 1954 e a situação histórica que o envolveu. Aquele era o último ano da presidência de Getúlio Vargas na sua volta após o período 30-45. Getúlio voltou com o apoio do voto popular e fazia uma gestão nacionalista. Além da valorização do salário mínimo e outros feitos, Getúlio criou a Petrobrás. Foi ao mesmo tempo o maior feito de um estadista brasileiro e o estopim que acendeu um barril de pólvora.
Vá até lá e estude o período, você vai se surpreender ao constatar que o posicionamento da oposição e da mídia naquele tempo em nada difere do de hoje. Vargas era apresentado como um chefe de quadrilha que estava levando o país ao caos, enquanto os índices de emprego e renda aumentavam e o apoio do povo também.
A crise teve início na criação da Petrobrás (que, aliás, foi sempre um sucesso) e se alastrou quando João Goulart, no Ministério do Trabalho, resolveu dar 100% de aumento no salário mínimo. Foi demais. A oposição, liderada pelo corvo do Lacerda, aliada aos interesses dos EUA (estude o marchartismo, a relação do Brasil com a USAID e a relação da Escola Superior de Guerra com os EUA), partiu para cima e só foi contida em seu golpismo com o tiro no peito de Vargas.
O golpismo sempre presente, o udenismo, o lacerdismo, que não tem voto, que só tem um discurso falso moralista vazio e que tem apoio de uma imprensa monopolista, ressurgiu com força em 64, derrubando Jango com a desculpa da ameaça comunista. Veja o que a Globo pensava do salário mínimo naquela época.
A direita, encarnada em Collor e FHC, achou nos anos 90 que a guerra estava ganha. Era o fim da história de Fukuyama. O caminho estava livre para se avançar para cima dos direitos trabalhistas e do patrimônio do Estado, que deveria ser "mínimo". No caminho do rolo compressor estava a Petrobrás. O primeiro tiro na empresa foi a quebra do monopólio em 98 e, depois, o regime de concessão para as multinacionais explorarem nosso óleo. O neoliberalismo avançaria sem freios e o PSDB governaria por 20 anos. Só que não.
Algo deu errado. O metalúrgico radical fez uma campanha de "paz e amor" e roubou a cadeira e a cena. Mesmo sem romper com o neoliberalismo, deu uma guinada pró-estado e pró-nacionalismo. Gerou emprego e renda e deixou os reaças lacerdistas com o discurso do preconceito e do mimimi. 
O mensalão, que todos sabemos começou no PSDB e que faz parte da promiscuidade da relação entre política e empresários no país (aliás, não é á toa que um ministro do STF segura há 1 ano matéria para tentar acabar com isso), foi a primeira tentativa. Afastada pelo brilho pessoal de Lula e pelo avanço social do país.
Porém, desde 2009, quando Lula praticamente re-estatizou a Petrobrás e instituiu o regime de partilha no pré-sal, que o golpismo voltou com tudo. Serra tinha se comprometido pessoalmente com a Chevron a entregar o pré-sal se eleito. Mas veio o "poste" de Lula e atropelou o tucano-mor. Era preciso reagir.
Faz mais de 3 anos ininterruptos que a Globo bate na Petrobrás. Todos os bandidos que roubaram a empresa estão lá há mais de 15 anos e o tal doleiro, assim como o mensalão, é cria tucana. Mas e daí? O negócio é bater na tecla: Dilma sabia e por isso não pode ser eleita. A capa daquela revista que escorre sujeira na véspera da eleição dizia isso. Dilma foi eleita. Agora, Dilma tem que ser derrubada. É o impeachment. O PSDB já pediu nova CPI e a Globo voltou à carga.
Quem vai estancar o golpe dessa vez? Um tiro no peito do Lula?
Sinceramente eu não sei.
Foram 54 milhões de brasileiros que disseram claramente na eleição que escolhem defender o emprego e renda contra as políticas neoliberais (debate que está pegando fogo na Europa agora). E o que o governo fez? Perdeu a chance de mobilizar essa gente e aprofundar o discurso. Joaquim Levy e suas falas e a medida provisória do seguro-desemprego foi um tapa na cara do povo. Lula passou a campanha toda carregando a Dilma nas costas e cadê ele? Deixar Lula de lado no governo é como deixar o Messi no banco de reservas.
Eu entendo que a mobilização popular não é coisa simples. Os movimentos populares são vagarosos na sua ação por questão de natureza. Precisam de tempo de depuração. Mas diante do quadro só há duas saídas: mobilização popular e volta do crescimento econômico. Sem isso, o avanço golpista será imprevisível.
Aqui no Calçadão nós não entramos no discurso golpista, aqui somos de outra linha. Aqui nós sabemos que o verdadeiro motivo do escândalo da Petrobrás é cumprir a promessa de Serra à Chevron. Aqui nós sabemos que estamos diante de uma luta decisiva contra o avanço do conservadorismo e dos interesses anti-patriotas. Estamos jogando as fichas de um país que precisa continuar no caminho da melhoria social e da diminuição das desigualdades, caminho esse que os inimigos da pátria, em defesa de seus interesses, não aceitam. Aqui essa canalha não passa.
obs: aqui vai o link para o artigo de Mauro Santayana republicado no Tijolaço. É uma vacina eficaz contra o golpismo midiático. Leiam: http://tijolaco.com.br/blog/?p=24531

Ricardo Jimenez

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Eduardo Cunha e as manifestações de 2013



Ontem foi eleito para presidir a Câmara dos Deputados e ficar na antessala do Palácio do Planalto, como primeiro na linha de sucessão da República, o deputado carioca Eduardo Cunha. Começou na política como funcionário de PC Farias, depois, como um dos mandatários do escândalo da TELERJ, seguiu sua carreira política sempre envolvida em suspeitas de falcatruas. Dizem que seria um dos poderosos citados na tal da Lava Jato, mas como esta investigação mira o impeachment da Dilma, mais uma vez o nobre deputado pode passar ao largo.
Cunha foi amplamente apoiado pela rede Globo e pelo rentismo, sua campanha para deputado no Rio custou 6 milhões de dólares, bancados pelas empreiteiras e bancos. Sua vitória ontem na votação da Câmara junta tudo isso e mais um detalhe: a aliança de Cunha com o chamado "sindicato do baixo clero", o conjunto de deputados, aos quais pertence os deputados de Ribeirão Preto, que se movimentam sempre em defesa de seus próprios interesses, no caso de Cunha dois: a garantia de aumentos nos salários e a aprovação do tal orçamento impositivo. O que seria isso? O deputado manda uma verba para a Santa Casa da sua cidade ou para uma ong beneficente e o governo é obrigado a liberar o dinheiro. Bonito, não? Não, não é. Esse dinheiro de emendas parlamentares serve como um coronelismo moderno, permitindo que deputados ajam como executivos em conluio com centenas de prefeituras, o que garante o voto moderno de cabresto para todos os envolvidos. Permite que deputados mal votados em suas cidades sejam eleitos com grandes votações em pequenos municípios da região. Conhecem um exemplo assim? Eu conheço dois.
Portanto, Cunha é hoje o homem do golpismo. O golpismo que nasceu em 2009 quando Lula transformou novamente a Petrobrás em empresa nacional, tirou o pré-sal das mãos da Chevron e elegeu Dilma contra o tucano-mor Serra. Golpismo que continuou na campanha intensa que a Globo manteve contra a queda dos juros, comandada pelo grande ministro Mantega. Golpismo que se incendiou após a vitória de Dilma sobre o play boy aeroportuário.
E o que tem isso a ver com as manifestações de 2013?
Bem, as manifestações começaram quando a polícia de Alckmin e de Cabral baixaram o pau nos manifestantes do passe livre e parte da população se revoltou e foi para a rua. De pedida para não aumentar tarifa, rapidamente o movimento se tornou anti-políticos e de anti-políticos para anti-Dilma. Aí, nesse momento, a rede Globo, que dissera inicialmente que o movimento Passe Livre era uma porcaria, já era totalmente pró-manifestações, transmitindo tudo ao vivo e gargalhando com a vaia que a Presidente recebeu na abertura do evento futebolístico.
E a política?
Bem, a política, essa política baixa e esse movimento de transformar a política em algo sujo onde "todos são iguais" e não prestam, característica da Globo, que assim pousa de padrão moral, foi seguida por 51 milhões que votaram em Aécio Neves. Os outros 54 milhões que votaram em Dilma pois de alguma forma enxergaram algo de diferente nesse jogo, e que na eleição saíram vitoriosos, estão perdendo desde que a Dilma reassumiu, mantendo alguns ministros incompetentes e dando a palavra econômica para o tal Joaquim Levy.
O avanço conservador que se refletiu na composição da nova Câmara dos Deputados é fruto dessa campanha de desinformação planejada da rede Globo, fazendo tudo parecer uma porcaria, e colando isso ao PT e na Presidente, ficam de lado os avanços sociais dos últimos anos, a discussão sobre rumos econômicos que ferve na Europa e os reais motivos da campanha infame contra a nossa maior empresa, a Petrobrás.
Com Cunha, com Levy e com a postura equivocada da Presidente, perdem seus eleitoes e ganha a Lava Jato, a Globo, o Serra, a Chevron, a política rasteira e os coxinhas de 2013.

Ricardo Jimenez